quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Antigo prédio do Colégio Anglo Americano em Botafogo abrigará Casa Daros





Casa Daros: Bilionária suíça banca museu no Rio
IG
Direto do Rio – Luiz Antonio Ryff


No Brasil, os bilionários ou multimilionários que gastam uma parte de suas fortunas com obras de arte costumam guardá-las para si mesmos, nas paredes de suas casas, nos jardins de suas mansões, longe do olhar do público e, não raro, do fisco. Há exceções, como o empresário da mineração Bernardo Paz, que fundou Inhotim, uma junção fabulosa de instituto de arte contemporânea e jardim botânico em Brumadinho, a 60 km de Belo Horizonte.

Por isso, é surpreendente que um museu de nível internacional vá abrir ainda este ano no Rio custeado pela fortuna de uma única pessoa. Mais surpreendente ainda é que a dona da fortuna é estrangeira: a suíça Ruth Schmidheiny. Ela financia do próprio bolso a abertura da Casa Daros, um espaço em Botafogo, na zona sul carioca, para exposição da maior coleção europeia de arte latino-americana contemporânea.


A origem dos Schmidheiny

Ruth é ex-mulher de Stephan Schmidheiny, pertencente a mais tradicional dinastia industrial suíça e uma das famílias mais ricas do mundo. Seu ex-marido e seu ex-cunhado estão na lista da Forbes de maiores fortunas do mundo. Quando o pai morreu, dividiu o espólio em dois. Thomas ficou com o setor de cimento (a segunda maior empresa do setor no mundo). E Stephan ficou com a Eternit, a gigante do cimento amianto (uma substância cancerígena), o que fez com que ele se tornasse uma figura bastante controversa. Em fevereiro foi condenado a 16 anos de prisão por um tribunal italiano em um julgamento sobre contaminação por amianto – ele anunciou que vai recorrer.

Maior museu de arte naïf no mundo reabre no Rio

Publicamente , Stephan condenou o uso do amianto bem antes que a substância fosse proibida e começou a substituir seu uso. Ele se aposentou em 2003 para se dedicar à filantropia e ao ambientalismo. Gastou mais de US$ 1 bilhão em projetos, a maioria na América Latina. A Forbes se referiu a ele como o Bill Gates da Suíça. Sua preocupação com o reflorestamento data dos anos 80 e ele foi um dos principais conselheiros de Maurice Strong, o secretário-geral da Rio92, durante a preparação e a realização da conferência da ONU no Brasil.

A Casa Daros é um projeto de sua ex-mulher, Ruth. Embora não sejam mais casados, continuam compartilhando certa aversão a entrevistas e conversas com a imprensa. O museu vai servir de local de exposição da coleção Daros Latinamerica que ela mantém em Zurich, na Suíça, com acervo composto de meios e formatos diversos – de pinturas e esculturas a fotografias, instalações e vídeos.

O museu no Rio deve receber entre duas e três grandes mostras por ano. A de abertura já está escolhida. Será “Cantos Cuentos Colombianos”, com 11 artistas da Colômbia, entre eles Doris Salcedo, Oscar Muñoz e José Alejandro Restrepo.

A Casa Daros deve ser inaugurada no segundo semestre deste ano. A data depende da conclusão da minuciosa reforma por que passa o imenso casarão neoclássico projetado pelo arquiteto Joaquim Bethencourt da Silva e erguido em 1866 na Rua General Severiano.

A construção é da época em que a região não era tão densamente povoada e podia abrigar uma chácara. Desde 1819 o local pertencia à Santa Casa de Misericórdia e nas últimas décadas foi ocupada por uma escola conhecida no Rio (o Anglo-Brasileiro). Mas, em sua origem, foi criado com outra função. Era o Recolhimento Santa Teresa, um orfanato para meninas pobres que teve entre os beneméritos D.Pedro II e a imperatriz Tereza Cristina. Posteriormente virou um educandário, também ligado à Santa Casa.

Curiosamente, a imagem que adorna o alto da fachada de entrada do casarão não é de Santa Teresa, como pareceria natural. É de Nossa Senhora das Graças, uma das invocações da Virgem Maria. Ela acabou virando inspiração e modelo para uma encomenda a Vik Muniz dentro da série “Pictures of Junk”. Foi recriada em dimensões maiores a partir do entulho da própria reforma do casarão.

A obra se incorpora ao acervo de mais de 1.100 peças de 114 artistas latino-americanos contemporâneos. Dezessete artistas brasileiros estão presentes na coleção da Daros. Entre eles, alguns bastante conhecidos, mas de estilos e trajetórias bastante diferentes, como Antonio Dias, Cildo Meireles, Hélio Oiticica, Lygia Clark, Ernesto Neto, Iole de Freitas, Mario Cravo Neto, Nelson Leirner. Entre os estrangeiros constam a escultora colombiana Doris Salcedo e o pintor uruguaio Joaquín Torres Garcia.


A equipe da Casa Daros tem uma ambição, que o espaço sirva para difusão e reflexão acerca da arte latino-americana. E, para tanto, pretende funcionar baseada em um tripé: arte, educação e comunicação.

Além de exposições, ela irá oferecer atividades integradas de arte-educação, como oficinas, seminários, cursos. E também terá o esquema de “artistas visitantes”, em que convidados passarão pequenas temporadas associados à Casa, trabalhando e difundindo sua arte, possibilitando o funcionamento de um espaço de convivência com práticas artísticas.

Para chegar até isso foram necessários seis anos. O casarão foi comprado em 2006. As obras começaram no ano seguinte. A inauguração do museu chegou a ser anunciada, inicialmente, para 2008 e, posteriormente, para 2009. Mas as dificuldades e especificidades encontradas durante a obra atrasaram o projeto.

“Achávamos que seria uma reforma bem mais simples. Houve um cálculo equivocado que ela duraria um ano e meio, dois anos. Mas a manutenção era pavorosa e a necessidade de restauro foi maior. Entrava água quando chovia, por exemplo. E não imáginávamos que teríamos que trocar o telhado inteiro”, explicou ao iG Isabella Rosado Nunes, diretora-geral da Casa Daros.

Como o imóvel era tombado, houve acompanhamento do Patrimônio Histórico. A preocupação era recuperar o prédio, sem descaracterizá-lo, adaptando o espaço para abrigar um museu do porte e com as necessidades da Casa Daros. Um exemplo é a instalação de elevadores de carga que possam carregar obras pesadas e de grande formato. Ao mesmo tempo, foi dispendido tempo e energia para recuperar a pintura marmorizada das paredes do saguão de entrada. O cuidado se estendeu às gigantescas palmeiras imperiais que ornam a frente do casarão.

Um passeio pelo prédio, acompanhando o trabalho dos operários, evidencia o cuidado com os detalhes na reforma. Para restaurar os janelões e portas imensas, foi preciso achar artesões que pudessem refazer as dobradiças e ferrolhos da forma mais próxima das originais. E olha que são 500 vãos de portas e janelas. O chão foi inteiramente rebaixado em meio metro para que pudesse ser utilizado. Sem falar em toda a parte elétrica e hidráulica, que foi refeita do zero.

Sorte do Rio, azar de Havana

O objetivo agora é concluir a restauração de dois terços dos 11 mil metros quadrados de área construída para a inauguração.

Se tudo correr sem novos imprevistos, a Casa Daros abrirá seus portões no final do ano. O prédio contará com uma biblioteca, um auditório para cem pessoas, um restaurante e uma cafeteria. O objetivo é levar ao museu não apenas o público habituado a esse tipo de espaço. Funcionará de quarta a domingo com uma previsão de 300 visitantes diários.

Por último, e não menos surpreendente, em um País onde o hábito do investimento em cultura pela iniciativa privada se dá em troca do abatimento do imposto a pagar e mediante publicidade para a própria empresa, até o momento nenhum centavo de dinheiro público custeou a Casa Daros. E só o casarão custou R$ 16 milhões. A ideia é tocar o museu sem recorrer a verbas governamentais, embora não esteja descartada a possibilidade de parcerias com outras instituições, inclusive públicas, no futuro.

A vinda da Casa Daros para o Rio também tem um componente de boa fortuna, na segunda acepção da palavra. Inicialmente, a ideia era tocar o projeto em Havana. Mas problemas burocráticos por lá acabaram inviabilizando a escolha e a opção recaiu sobre o Rio. Azar dos cubanos.

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