sexta-feira, 29 de março de 2013

Sexta Feira da Paixão e Macelas

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Assoviava o vento de campanha na minha janela veneziana de madeira... 



O som e halo mágico do Minuano...


Esvoaçando a cortina transparente a jorrar cheiro de anil...

Muito antes do clarear...

Assoprando nuvens algodão imensas nos pampas...

Visualizava o fenômeno sonolento...

Maldizendo aquele horário de lobisomem...

O gemido da natureza trocando de horas...

No rádio valvulado, músicas sacras...

Pôs bueno...

Minha avó Pequena chegava no quarto...

Com suas mãos cheias de pintas me vestia a bombacha quadriculada...

Camisa branca dura engomada...

E lenço vermelho no pescoço...

Estava vestido de ‘grosso’...

Tomava um café com leite cheio de nata...

Que minha mãe se negava coar...

Na porteira a tropa aguardava com seus cavalos soltando fumaça quente pelas ventas...

Encabulado tinha dificuldades ao subir no pingo arisco...

Um petiço marchador...

O cusco barulhento ladrava idiota tentava morder o calcanhar da montaria atrapalhando ainda mais minha manobra...




A contragosto, com a bochecha vermelha, dava adeus à minha família emocionada...


Como se partindo tal um “Voluntário da Pátria” para uma “Guerra dos Farrapos” das minhas aulas de História...

Galopávamos...

Arrastando arreios chacoalhantes à caminho da colheita de “Macelas”...



Uma tradição gaúcha da Sexta-Feira da Paixão...



Recolhíamos o mato alto dentro de sacos alvos farinha de trigo antes do dia explodir seus últimos raios nos barrancos entre as montanhas e o céu...

Num clarão avermelhado cortando o puro azul do Rio Grande...

Evitávamos o frescor da geada noturna a afugentar a pureza das plantas sagradas...

Numa Sexta-Feira Santa de lembranças debruçadas no canto empoeirado da alma...

Ondulando recordações adultas a renovar momentos da ilusão de ser feliz...

Voltando a ser guri...




Jorge Schweitzer





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