




(texto escrito as três horas da manhã do dia 06/setembro/2011)
De antemão aviso que não valho nada...
Não tenho amigos...
Nenhum...
Todos fogem assombrados...
Me consideram um panfletário a pregar no deserto...
Meus discursos são inócuos...
Os ecos se perdem nas montanhas e nas selvas duras...
Ontem pedi socorro...
Após encontrar três famílias com suas crianças perdidas ao lado do prédio da Favela da Manchete agora retomada por Ordem Judicial...
Fotografei o local e enviei para quem poderia repercutir além de postar no Táxi em Movimento...
Voltei a trabalhar acreditando que eu seria atendido e minutos após estas famílias seriam amparadas pelo Serviço Social da Prefeitura do Rio de Janeiro ao tomarem conhecimento...
Sabem o que aconteceu?
Nada!
Algumas outras vezes aconteceu o mesmo fenômeno do silencio incompreensível como quando uma família se dirigiu ao IML para cobrar laudo da morte de uma criança...
Notícias ótimas são de mortes por atacado e não dramas isolados no varejo...
Logo após receberei enxurrada de explicações a consertar novamente...
Não importa...
Ontem...
Eu sozinho...
Fui responsável por algumas famílias miseráveis passarem esta próxima madrugada na rua enquanto todos nós dormimos em nossos edredons com cheiro de amaciante...
Se soubesse que desprezariam meus recados teria tentado outras alternativas...
Não fiz, confiei...
Como sempre insisto em confiar que numa véspera de feriado não estariam enchendo o porta-malas de seus automóveis luxuosos para saborearem o conforto de suas casas de praia ou da serra...
Ou no check-in de algum aeroporto em translado para seus paraísos...
Sequer utilizaram o blackberry - como sempre me respondem de pronto - para extrair toda esperança da alma dos desvalidos...
Mas, eu sou o culpado...
Sozinho...
Se ocorresse de uma única baleia encalhada eu conseguiria mobilizar a mídia inteira do país, mais o NYT, o Le Monde e toda população do Rio de Janeiro para se fingirem de guardiães a salvar o mamífero parrudo...
Se fossem três lindos pinguins da Antártida chegaria metade do contingente da Defesa Civil para sair bem na foto...
Se fosse uma família de brancos endinheirados do Leblon que perderam a fortuna em cassinos ou equivocados ao apostar na Bolsa e acabaram debaixo dos viadutos do Gasômetro apareceria o Fantástico disputando com o Domingo Espetacular a matéria...
Negros, pobres e ferrados já não constrangem comoção humana...
Pertencem ao imaginário que pobres se acostumaram com a crueldade do desconforto...
E pronto...
Eu queria somente que les misérables da Frei Caneca experimentassem apenas uma próxima noite inesquecível em que seriam tratados como cidadãos brasileiros numa véspera de nosso feriado de 7 de setembro da Independência do Brasil....
A reproduzirem para seus filhos que há motivos para não perderem a Fé...
Não consegui...
Nesta bosta de país desgraçado de todos poderes dos vagabundos enfatiotados ladrões a indignação deve ser deglutida no fel amargo sem que alguma gota de lágrima exponha nossa repulsa...
Melhor acostumar o olhar ao mondo cane e o olfato às desumanidades fedorentas para não vomitarmos a cada esquina da morte anunciada de todos ideais de igualdade e respeito pelo próximo...
Mas...
Engraçado como estas crianças abandonadas não sentem-se infelizes...
A cada fotografia eu tinha que mostrar no monitor como ficou...
Me abraçavam e riam quase sem acreditar na mágica...
Um deles beijou minha mão e os outros dois repetiram me zoando...
Registrei imagens de seus pais que almoçavam em vasilhas improvisadas e preferi não reproduzir todas fotos por aqui...
Uma senhora sentada sobre um colchão na rua ao lado com único dente no sorriso...
Outra moça na praça em frente em olhar perdido com suas inúmeras bolsas de plástico do Mundial e um fiel cachorro vira latas...
Tal ficção Blade Runner dos fins dos tempos...
A sociedade do cada um por si admirando estufados umbigos a emoldurar a pança forjada nas bandejas forradas por receitas escoladas nos matutinos programas da TV...
Faltou na porta da Favela da Manchete resolutas ONGs oportunistas que só mostram-se quando holofotes espocam a primeira página do dia seguinte...
E...
Um Deus Omnipotente e Onipresente em Triunvirato que só acode em falsos milagres pastores picaretas...
Oh Deus, onde estais, caramba?
Um Deus que só creio como brasão dos ventrílocos vendilhões do Templo a captar dízimos multiplicadores de rebanhos crédulos que a felicidade só nasceu pelas mãos do Criador para afortunados que adornam roupa adequada para adentrarem igrejas encarpetadas; capacidade mental para decorebas de versículos repetidos e holerites que identifiquem dez por cento...
Cansei!
Fim da linha...
Estou a venda...
Por qualquer trinta balas traçando 762 vezes sobre os céus dos acomodados...
Estes sorridentes meninos abandonados serão os próximos soldados...
Quem dá mais?
Jorge Schweitzer
PS: Vencendo minha falta de solidariedade me preparei para passar a noite com eles na frente do Instituto Felix Pacheco ao lado da Favela da Manchete transmitindo on line para meu blog e telefonando para os Bombeiros; PM; Conselho Tutelar - já que existiam crianças desprotegidas - e também para redações de jornais, até àquelas que me odeiam... Coloquei créditos nos celulares; peguei dois cobertores; comprei dez pastéis de queijo; duas Coca-Colas pet e segui para o local... Pela primeira vez na vida eu faria algo real... E... Não foi possível... O destino nunca me permite... Num intervalo de duas horas entre eu ir em casa e retornar já não estavam por lá... Alguém finalmente os acolheu... Ainda bem... Eu seria considerado oportunista pegando carona na desgraceira alheia... Acelero até a Glória e localizo meninos usuários de crack no monumento ao lado da Praça Paris... Ao mostrar o lanche ficam desconfiados com tanta generosidade celestial... - Não tem chumbinho, tio?... - Escolham qualquer pastel que como para vocês confiarem... Um deles mais arrojado... - Se é para morrer, melhor de barriga cheia... Conto que já fotografei alguns deles por ali... - Fotografa agora, tio, a gente comendo... Antes de ir embora deixo meu nome e telefone escrito atrás de um recibo do Táxi em Movimento que um deles guarda no meio dos seus trapos... Juro novamente que esta é a última vez que acabarei fazendo parte das tragédias humanas que narro por aqui... Juro... Na verdade não sou Valjean, sou Javert...
Pouco antes de postar este texto recebi telefonema de uma emissora de TV querendo fazer matéria sobre o caso... Não há mais nada a declarar... O que era para ser falado está acima...











