Domingo, quase 16h, e o bastidor de um filme é assim: gente que está acordada e trabalhando desde as 5h da manhã para rodar uma cena que dura dez minutinhos.
Na porta do Cine Odeon, um Simca Chambord preto, uma Vemag cinza e dezenas de figurantes com roupas e penteados perfeitos dos anos 60. Estão na reta final das gravações de "Detalhes de uma Vida", a cinebiografia do Roberto Carlos (que agora vai para Minas Gerais gravar a cena do acidente de trem).
Mas o mais surreal do Rio de Janeiro é que ele é uma pequena grande aldeia: mês passado, por acaso da vida, conheci a filha do homem que salvou o Roberto no acidente em Cachoeiro de Itapemirim — aquele do linho branco que ele canta em O Divã ("a paz de quem carregava...").
Os pontos se encontram do jeito mais inacreditável possível..
Neste último domingo, decidi pagar para ver e fui conferir o Festejo Carioca da Cerveja, que movimentou a histórica Rua da Carioca. Cheguei por volta das 15h, exatamente no instante em que uma banda subia ao palco para começar o som.
A primeira surpresa foi a quantidade de pessoas. Mesmo sabendo que o Rio de Janeiro tem esse talento múltiplo para promover encontros bacanas, plurais e gratuitos espalhados por toda a cidade aos domingos — o que sempre pulveriza o público —, a Rua da Carioca estava genuinamente cheia.
Muitas barraquinhas espalhadas, os novos bares que estão apostando na região totalmente abertos e, o mais legal, os comércios antigos e rústicos também aproveitando a movimentação para faturar e dar vida ao espaço.
Até a tradicional livraria da rua estava aberta e de portas lotadas, mostrando que o perfil do público que frequenta esses eventos consome e valoriza a cultura local.
Por outro lado, o passeio também traz reflexões sobre o patrimônio do nosso Centro.
Ao passar pelo Cine Íris, notei as portas fechadas. É um lugar fantástico, com uma arquitetura belíssima e uma belíssima tradição familiar na administração, mas que claramente precisa se adequar aos novos tempos. Falando abertamente, hoje existe até um certo constrangimento e temor das pessoas em usar aquelas poltronas antigas. O espaço clama por uma reestruturação geral para recuperar o prestígio que merece e dialogar com o público atual.
No balanço geral, a experiência quebrou meus preconceitos. Eu confesso que tinha lá minhas reservas sobre o real potencial de retomada daquela área, mas saí de lá convencido: a Rua da Carioca tem tudo para se consolidar como um grande point cultural e de lazer no Rio de Janeiro.
A revitalização é real e a energia do domingo provou isso.
Pintor e filósofo têm uma coisa em comum: só ficam famosos depois que morrem...
Quem vê a Lapa cheia hoje mal lembra do Jorge Selarón que conheci.
Andava sem camisa, com o rabo de cavalo desgrenhado e um baita mau humor porque ninguém comprava seus quadros.
Em janeiro de 2013, gravei a Rua Joaquim Silva cercada de polícia logo após ele ser encontrado morto. Como sempre digo no meu canal: se não gravou, é mentira! Esse registro histórico está no meu YouTube (Jorge Schweitzer - Táxi em Movimento). Na época eu já dizia: para mim, foi assassinato e não suicídio.
Mais de uma década depois, volto aqui ao som de "Vincent" e vejo o "velho rabugento" imortalizado nesse mural gigante da artista Rafa Mon.
Os estudantes da Universidade Federal Fluminense possuem todos os méritos e honras pela vitória do Lula no segundo turno.
Eles merecem subir a rampa com o Lula, é obrigação convidá-los!
E digo mais: o Janones tem a obrigação de vir publicamente agradecer aos alunos da UFF.
Ok que o Janones foi importante e teve um peso gigantesco, mas ele ficou no ar-condicionado. Eles foram para a rua, para a chuva, para o asfalto, para a pancadaria se fosse preciso.
O valor deles é inestimável.
Digo isso sem medo algum de estar equivocado: eles foram o estopim que espalhou um maravilhoso rastro de esperança e sinergia no seu melhor significado.
No dia seguinte ao resultado do primeiro turno o clima era de cidade arrasada, luto fechado, ressaca cívica. Daí eu vi um vídeo de uma turma de jovens estudantes de Niterói numa noite chuvosa numa manifestação forte, com gana, como se eles tivessem certeza que a virada era possível. Naquele instante só eles acreditavam nisso.
Aquilo era fascinante, contagiante!
O sentimento que tive na hora foi uma mistura de paura e orgulho ferido por não estar lá. Daí descobri que eles viriam ao Rio de Janeiro e virou aquela integração indescritível que aqueceu nossos corações e mentes com esperança. Sem eles nada disso teria acontecido.
Lula deve muito da sua eleição aos estudantes da UFF. Eles fizeram história; esta vitória é muito deles.
Essas multidões que se formaram no país inteiro tiveram como inspiração, modelo e formato o que começou em Niterói. A Espanha quer contratar o Janones? Atenção, Janones: você tem que agradecer publicamente à UFF.
E, ao invés de eles descansarem nos louros, estão agora no asfalto caçando o Douglas Ruas. Ele que se prepare!
Esses jovens são maravilhosos!
Eles terão muitas imagens para mostrarem para seus netos e comprovarem que estiveram numa guerra e venceram.
Se você acompanha as redes sociais, deve achar que visitar o Real Gabinete Português de Leitura é uma eterna via-crúcis de filas intermináveis.
Mas a realidade de quem vive o Centro do Rio no dia a dia é bem diferente.
Aquelas multidões quilométricas são sazonais, restritas a grandes eventos na cidade, férias ou feriados longos.
Dai, resolvi mostrar como o acesso é tranquilo em dias normais: apenas 3 minutos de espera na fila, entrada organizada de 20 em 20 pessoas e 15 minutos livres para contemplar o salão.
O fenômeno recente do turismo ali gerou algo muito simpático do lado de fora: uma feirinha improvisada na calçada, atrás do Teatro João Caetano. Longe de ser um "mafuá", o espaço é extremamente limpo, caprichado e com produtos de excelente bom gosto, aproveitando o fluxo de visitantes de forma inteligente.
Lá dentro, a atmosfera impressiona.
O estilo neomanuelino é propositalmente carregado de detalhes para celebrar a época das Grandes Navegações portuguesas. Cada coluna e arco esculpido remete a cordas de navios, esferas celestes e monstros marinhos, passando uma energia forte de exploração e descoberta.
Se você quer um detalhe novo para focar o seu olhar contemplativo, aqui vão três segredos desse salão:
O Gabinete de Ferro: A estrutura interna que segura as milhares de prateleiras é toda de ferro fundido. Foi fabricada na Europa, veio de navio e foi montada ali como um quebra-cabeça tecnológico da Revolução Industrial.
O Altar do Conhecimento: O salão foi desenhado para lembrar uma igreja gótica, mas os "altares" são os próprios livros e bustos de grandes escritores como Camões e Álvares de Azevedo. Um templo laico dedicado ao saber.
O Tesouro Oculto: O local guarda um exemplar manuscrito e original de Os Lusíadas do século XVI. Ele não fica exposto por segurança, mas saber que essa relíquia respira no mesmo prédio duplica o peso histórico do lugar.
O Centro do Rio tem história, beleza e criatividade. Vale muito a visita!
Rua Luís de Camões, 30 — Centro (Segunda a sexta, das 10h às 17h. Entrada gratuita).
Ao registrar o ato organizado pelos estudantes da UFF no Centro do Rio — focado no movimento contra as diretrizes de Douglas Ruas — fui testemunha de um fenômeno que vai muito além da pauta política: o funcionamento prático de uma tática que exige uma disciplina psicológica impressionante.
Historicamente pioneiros, como bem destacou a matéria do jornal O Globo sobre o papel estopim da UFF nestas mobilizações, esses jovens trazem para o asfalto uma estratégia cirúrgica de segurança baseada na não reação pacífica. Diante de provocações externas agressivas, a ordem coletiva é o foco absoluto no ato.
Ao presenciar uma dessas ofensas, meu instinto imediato de cidadão foi o do revide; no entanto, fui prontamente desaconselhado pelos próprios estudantes a não cair em provocação.
Essa experiência pessoal certificou o que vinha observando de longe em outros episódios recentes na cidade: a dinâmica atual dessas mobilizações funciona como um freio moral coletivo, onde a juventude prefere resguardar a legitimidade do ato a responder ao conflito.
Entre os tambores marcantes da Rio Branco, a verdadeira força desse registro acabou se revelando no autocontrole invisível que rege a multidão.
A retomada cultural da Casa Brasil: um olhar atento sobre o patrimônio.
Quem frequenta o Centro do Rio acompanha de perto as transições dos nossos patrimônios históricos.
Desde a mudança da antiga Casa França-Brasil para a atual Casa Brasil, ver esse monumento de arquitetura belíssima passar por um período de abandono e desestruturação cortava o coração de qualquer visitante atento.
O público repara nas ausências, mas também sabe reconhecer quando o espaço público é retomado com seriedade e respeito.
Visitei hoje a excelente exposição "Dançar Diante da Lua", que marca essa nova fase com uma produção caprichada, profissional e de extremo bom gosto.
A mostra impressiona pelo tratamento sofisticado e cuidadoso dado às temáticas populares.
O grande destaque vai para a emocionante e merecida homenagem à genial Clementina de Jesus — uma estética ancestral tratada com o requinte e a dignidade que nossa cultura merece.
Uma ocupação necessária que devolve a vida e a arte aos salões desse edifício neoclássico. Vale muito a pena estender o roteiro pelo Centro e visitar.
A exposição fica em cartaz até 15 de novembro na Rua Visconde de Itaboraí, 78 (Centro) — com entrada gratuita.
"As Flores do Jardim da Nossa Casa", lançada por Roberto Carlos em 1969, logo pensa em uma separação dolorosa e, na realidade não é sobre amor não correspondido.
Mas a verdade por trás da letra é o drama de um pai.
Roberto Carlos compôs essa obra em Amsterdã, no quarto de um hospital, tomado pelo desespero. Seu primeiro filho biológico, o Segundinho (Dudu Braga), havia nascido com glaucoma congênito e corria o risco iminente de perder a visão.
O "jardim" sem flores e a "tempestade" eram, na verdade, o medo da escuridão que ameaçava o futuro do seu filho.
Uma das melodias mais tristes da MPB esconde, na verdade, uma promessa de fé e cura.
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A Cinelândia esvaziada hoje, no aniversário de Lula, deixa uma lição clara: o povo só vai às ruas por razões fortes e necessárias. É preciso saber a hora e o motivo certo para não queimar pautas nobres.
O tambor da rua é a caixa de ressonância da indignação que mete medo em qualquer político. Historicamente, movimentos populares moldam o mundo — da Revolta de Atenas à Marcha do Sal e aos Direitos Civis americanos.
Dizer que a maioria de oposição no Congresso inviabiliza o governo é questionável. Lula tem uma força popular gigante, vista nas ruas durante a eleição. Essa força real estará pronta se houver real necessidade
Porque se tem uma coisa que deputado e senador teme, é o eco da rua baforando em seu cangote. Isso dita o futuro deles nas urnas.
Para lembrar: Bill Clinton governou um dos períodos mais prósperos dos EUA com o Parlamento inteiramente contra ele — e enquanto namorava no Salão Oval. A força política se mede no momento certo.
Lançada em 1971, "Amada Amante" esconde uma história de coragem.
Roberto Carlos escreveu essa obra-prima para Nice Rossi, sua primeira esposa.
Como o divórcio não existia no Brasil na época e eles haviam se casado no exterior, a sociedade moralista rotulava a união, e a censura da ditadura militar chegou a proibir a canção num primeiro momento. O motivo? Os censores se incomodaram com a palavra "amante" e com os versos que misturavam amor e sexo ("depois que o amor se fez").
Naquela época, o termo "amante" carregava um peso moral imenso, associado à clandestinidade. Roberto Carlos subverteu esse preconceito.
Ao cantar "Amada Amante", ele uniu o lado respeitável (amada) ao lado passional (amante), defendendo que uma esposa legítima também deve ser o grande objeto de desejo e paixão.
Ana Clara Gomes Machado é a menina de cinco anos atingida por um disparo de fuzil no dia 2 de fevereiro de 2021, por volta das 9h30 da manhã.
O crime ocorreu em uma rua residencial aberta na comunidade do Monan Pequeno, em Pendotiba, Niterói. A plena luz do dia e a excelente visibilidade derrubaram qualquer alegação de "ponto cego". Naquele momento, moradores gritavam desesperados, avisando que havia crianças na rua.
Ana Clara foi atingida por um único disparo de fuzil calibre 7.62. Devido à altíssima potência do armamento e à anatomia de uma criança de cinco anos, o projétil fez um trajeto contínuo devastador, gerando quatro marcas físicas: transpassou o braço direito (entrada e saída), perfurou o tórax — causando a hemorragia interna fatal — e dilacerou o ombro esquerdo.
Logo após o crime, os policiais militares recolheram as cápsulas do chão em uma tentativa de apagar as evidências. No entanto, a perícia da Polícia Civil encontrou cápsulas remanescentes na cena. A numeração gravada no metal confirmou que os estojos pertenciam exatamente ao lote de munição oficial distribuído para o batalhão da equipe do cabo Bruno Dias Delaroli. A ausência de vestígios de munições de outros calibres provou que o ataque foi unilateral, sem qualquer confronto.
O processo contra o policial militar avançou para o Tribunal do Júri, ganhando repercussão nacional devido à atuação jurídica direta do senador Flávio Bolsonaro na defesa do réu.
A mãe da menina, Cristiane Gomes da Silva, estava ontem na plateia da TV Globo acompanhando o debate presidencial. Citada pelo presidente Lula, ela assistiu ao candidato Flávio Bolsonaro confundi-la e chamá-la pelo nome da própria filha falecida, Ana Clara. O ato demonstrou, com dolorosa clareza, que o senador conhece intimamente apenas o homem responsável pela morte da criança.
Qualquer advogado com um nível mínimo de ética hesitaria em assumir a defesa de um crime cuja vítima é uma criança de cinco anos.
No entanto, Flávio Bolsonaro prontificou-se a fazê-lo de graça.
Existem absurdos que desprezam e desafiam a nossa indignação. A memória de Ana Clara merece respeito — e a sua mãe também.